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Cap. 12 - Amai os vossos inimigos

Acompanhe o estudo do evangelho segundo o Espiritismo através de um roteiro sistematizado de perguntas e respostas para cada item do capítulo.
Cap. 12 - Amai os vossos inimigos
Por Gilton Carlos 23/05/2024

Item 1. Aprendestes o que foi dito...
Pergunta: Por que diz Jesus que devemos agir de algumas formas para sermos "filhos do vosso Pai que está nos céus"? Não somos todos filhos de Deus?

Resposta: Neste ponto, como em muitos outros, precisamos nos localizar no contexto da linguagem usada e dos costumes da época. Aparentemente, a ideia de que uns são filhos de Deus e outros não se choca com a oração que Jesus ensinou que inicia com "Pai nosso". Como em muitos pontos, o Cristo refinou o entendimento sobre o Criador, a ideia de Deus, iniciada, se podemos dizer, com Moisés. Ele está falando sobre identificação. Quando agir assim, quando fizer desta forma, etc. estará em identificação com Deus. Este o significado da expressão "ser filho". Dizendo assim, Jesus explica que Deus age com amor para com todos e que aqueles que o reconhecem como pai devem agir da mesma forma.

Item 2. “Se somente amardes os que vos amam...
Pergunta: A que se refere a recompensa referida por Jesus? 

Resposta: Para entendermos vamos colocar como pano de fundo o processo reencarnatório. Cada vida é estabelecida para promover aprendizado ao Espírito. Cada avanço conquistado no campo moral, tais como paciência, fé, humildade, caridade, no âmbito da lei natural de causa e efeito, tem suas consequências. As boas consequências são as recompensas. No entanto, nos cenários que Jesus apresenta, cada atitude está dentro do contexto dos sacrifícios pessoais. Assim, é preciso abrir mão do orgulho e do egoísmo na relação com os outros que são diferentes e distantes de nós ou que nos inspiram a vontade de ajudar quando há a perspectiva da retribuição. Este esforço pessoal, diz-nos Jesus, terá seus benefícios naturalmente computados, mas ao Espírito, que por, sua vez, terão seus efeitos observados tanto no mundo espiritual, quanto nas encarnações que se seguirem, de acordo com alei de amor.

Item 3. Se o amor ao próximo constitui o princípio da caridade...
Pergunta: Por que, boa parte de nós, encontramos grande dificuldade em amar o próximo ou um adversário?

Resposta: Vamos iniciar dizendo que a resposta dada por Jesus na parábola do bom samaritano resume nossos deveres nas relações com os outros. E para compreendermos nossas dificuldades em seguir o enunciado cristão do amor ao próximo, antes é preciso olhar para dentro e avaliar, em nossa posição evolutiva, o quanto o orgulho e o egoísmo nos conduzem as ações e pensamentos. Estando nas fases iniciais, nossos impulsos e mesmo as expansões de amor, estão todos mais ou vemos envolvidos em egoísmo orgulho. Isto faz com que, em modo automático, sejamos conduzidos por eles. Daí, o alerta de Jesus, em determinada ocasião, para a vigilância. Ou seja vigilância moral, estar atento para manter-se guiado por aquilo que deseja adquirir (humildade e caridade) e não pelo que já possui (orgulho e egoísmo). Assim, o primeiro trabalho é ir esvaziando conscientemente o conteúdo nocivo do coração para que o novo espaço seja ocupado pela benevolência, pela compaixão, pela caridade, enfim. Neste momento, as dificuldades deixarão pouco a pouco de existir porque não haverá mais luta contra a lei de Deus.

Item 4. Amar os inimigos é, para o incrédulo, um contrassenso...
Pergunta: Por que mesmo entre espíritas é possível ver os sentimentos e desejos do mal, uma vez que são sabedores das consequências e da vida espiritual em todos os detalhes?

Resposta: O estudo da doutrina espírita é um dos maiores auxiliares na educação para a verdadeira vida, a do espírito. No entanto, devemos compreender que, se tirarmos as aparências e os grupos aos quais nos ligamos na vida atual, encontraremos o Espírito em sua mais sincera feição. Disto se dá que, os defeitos, os vícios morais, por exemplo, estarão ali presentes. Com o estudo e a prática do bem estes conceitos cristãos/espíritas vão sendo incorporados pouco a pouco. E o indicador do nível de aprendizado dos postulados de Jesus está na mudança do comportamento. É para esta questão que Kardec aponta quando diz que reconhece-se verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz pra domar suas más inclinações.

Item 5. Ainda outros motivos tem o espírita para ser indulgente...
Pergunta: Há alguma sugestão ou meio prático que pode ser usado para a reconciliação com um inimigo desencarnado? 

Resposta: A doutrina espírita demonstrou o fato da continuidade da vida. Assim, como posto, os que desencarnaram permanecem vivos, pensando, sentindo, lembrando, vivendo, enfim, sem descontinuidade. Assim como as boas memórias, as desavenças que dão lugar as obsessões também estão vivas nos corações não evangelizados. Os espíritos que nos acompanham podem saber de nosso comportamento, pensamentos sendo testemunhas de nossos esforços para melhorar ou se cultivamos apenas aparência. Assim, quando os nossos esforços de correção moral existem, a oração periódica a Deus ou a Jesus em nome daquele que sabemos querem nos prejudicar servem como meio prático que vai amenizando os ataques, ou os motivos dele. O espírito que obssedia vê e sente a força moral sendo construída e a sinceridade daquele que pede perdão, não apenas palavras solitárias. Neste ponto, a constância e o desejo sincero de reconciliação, onde está a compreensão, paciência e a aceitação serão auxiliares poderosos para o nascimento do perdão mútuo e da amizade.

Item 6. Pode-se, portanto, contar inimigos assim entre os encarnados...
Pergunta: Uma vez que a obsessão é claramente um mal, por que Deus, que é bom, permite que aconteça?

Resposta: Na parte inicial de O livro dos espíritos, Kardec tenta resumir os atributos de Deus. Dentre eles, O destacam como soberanamente justo e bom. Aqui não são dois atributos. Mas apenas um. Se pudéssemos cunhar um novo termo, assim como Einstein criou o termo espaço-tempo para indicar uma única grandeza, diríamos que Deus é justo-e-bom. Uma vez que são indissociáveis. Assim, os males que nos chegam, em todas as suas expressões, tem componentes de justiça e bondade. No caso das obsessões, o mal que praticamos, ou os prejuízos que causamos, é natural e compreensível que retornem à nós. No entanto, ele também carrega a bondade da oportunidade de aprendizado: para que o erro não seja cometido novamente, para o Espírito adquirir humildade, resignação, fé, aprender a perdoar, a orar etc. Lembrando sempre que, uma vez aprendido a necessidade cessa. E a obsessão, por exemplo, perde sua função. É neste momento que a lei de amor estabelece sua interrupção.

Item 7. Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente...
Pergunta: Como podemos entender a recomendação de Jesus "não resistais ao mal"? Será aceitá-lo, deixar campo livre a sua atuação? 

Resposta: Jesus demonstrou em tudo a bondade suprema e sua perfeita filiação com Deus. Sua missão educadora com os Espíritos aponta sempre para o bem, por entender que o mal surge como um produto dentro de cada um de nós. A base desse chamado está no fato de que para acabar com o mal em todo o mundo, basta que cada um acabe com o mal em si mesmo. E é aqui que ele está trabalhando nessa passagem. Em nosso nível evolutivo, quando enfrentamos o mal, normalmente o fazemos usando o mesmo mal. Por exemplo, a um ato criminoso, respondemos com a crítica embedida em ódio, uma opinião preconceituosa é recebida com agressividade e desprezo... Na conceituação que Jesus apresenta somente o mal faz frente ao mal tentando pará-lo, impedi-lo. O bem é diferente. Ele educa! Atende, sem ferir, contrapõe sem machucar. Trata com brandura sempre, para depois usar a persuasão, se for o caso.

Item 8. Os preconceitos do mundo sobre o que se convencionou...
Pergunta: Moisés determinou "olho por olho, dente por dente". Jesus, no entanto, disse que "se alguém vos bater numa face, apresentai-lhe a outra". Por que ensinos tão divergentes uma vez que a lei de Deus é uma só e imutável?

Resposta: As leis naturais realmente são sempre às mesmas, independentemente do tempo e dentro deste conjunto encontramos a lei de evolução. Por isso, a própria lei de amor que educa os espíritos para o bem deve-se aplicar em conformidade com o grau evolutivo do ser. Isto é, àqueles que sabem mais, que podem mais, maiores serão os deveres. Àqueles que estão começando menos serão cobrados. Jesus e Moisés conformaram a pedagogia de acordo com cada época, respeitando a capacidade de aprendizado. Assim, podemos compreender que, se Jesus nos ensinou a perdoar, fazer o bem como pagamento ao mal recebido, por exemplo, é que já estávamos em condições de fazê-lo, não obstante as dificuldades que julgamos existir. Esta é uma grande demonstração de confiança e amor em nós dada pelo Cristo.

Item 9. A vingança é um dos últimos remanescentes...
Pergunta: Por que se afirma que a vingança é um indício certo do estado de atraso moral?

Resposta: A vingança levada a execução tem uma motivação que está na medida do nível de orgulho e egoísmo do indivíduo. Quanto maiores, mais o Espírito, encarnado ou não, entende ter o direito de revidar, frequentemente em moeda mais cara. Este é um extremo da escala evolutiva, caracterizando uma proximidade maior do início da jornada, uma vez que os espíritos puros tem por essência a humildade e a caridade plenamente desenvolvidas, em estado moral adiantado. Assim, cumpre-nos, como espíritas cristãos compreender o processo para sermos indulgentes para com os outros, mantendo o esforço constante para nos elevarmos na escala da bondade que, no nível da maioria de nós, ainda significa trabalhar para combater os ímpetos de vingança que possa existir em nossos corações.

Item 10. Amai-vos uns aos outros e sereis felizes...
Pergunta: Por que devemos cuidar de, sobretudo, amar aqueles que nos inspiram indiferença, ódio ou desprezo? 

Resposta: A lei de amor é maior mandamento na legislação divina. Assim, todos nós estamos, às vezes sem perceber, seguindo sob sua condução. Amando aqueles que nos inspiram bons sentimentos, que nos relacionamos bem, produzimos um amor de retribuição no nosso nível evolutivo, que tem seu valor. No entanto, quando isto é direcionado aos que nos querem mal, surge a oportunidade do crescimento, do passo a mais na encarnação, que será conseguido a peso de sacrifício do orgulho e do egoísmo. Este é um chamado do Cristo ao esforço para evolução. 

Item 11. Só é verdadeiramente grande aquele que...
Pergunta: Por que a prática do duelo, tão comum e valorizada antigamente, ainda não desapareceu por completo?

Resposta: O duelo denotará sempre uma sugestão do orgulho que não soube o que fazer ante uma ofensa. Os duelos tradicionais que tinham por justificativa a defesa da honra, nada mais representavam que uma tentativa de compensar com a força e a violência, a falta de habilidade moral para lidar com a própria inferioridade. No entanto, como filho do orgulho, enquanto este não for completamente transformado, o duelo ainda existirá. Se hoje os desafios de espada e armas não mais existem como antes, os duelos de hoje se vestem de debates políticos ofensivos, disputas ideológicas, agressões familiares, perseguições profissionais e desprezos de toda natureza. Somente a educação moral do espírito será capaz de erradicar por completo qualquer vestígio dessas lutas embaraçosas que o orgulho tem nos lançado há tantos séculos.

Item 12. Em certos casos, sem dúvida, pode o duelo...
Pergunta: A que causa poderíamos atribuir o fato de valorizarmos mais nossa imagem perante os outros que perante Deus, ao responder a ofensa com uma provocação, um duelo?

Resposta: A medida que o Espírito avança na evolução, vive, por assim dizer, mais espiritualizado. Isto significa que vive mais para os valores morais. Isto é, àquilo que leva ao bem: humildade, paciência, esperança, caridade etc. Quando encarnado, as dores que passa, as ofensas que recebe, as perdas de todo tipo são recebidas com resignação e confiança em Deus. Quando esses valores não estão delineados no coração do Espírito, acima de tudo a humildade, põe a si mesmo na posição superior que tudo deve resolver. Não tendo referência moral do evangelho em si entrega-se as sugestões do orgulho, buscando entre as opiniões do mesmo orgulho na sociedade uma satisfação.

Item 13. O duelo, como o que outrora se denominava o juízo de Deus...
Pergunta: Podemos dizer que o duelo, como conhecido nos séculos anteriores, por lei e pelo costume está banido da terra. No entanto, pode o duelo existir ainda sob outros formatos?

Resposta: A medida que a mentalidade moral do serviço humano avança, novas leis, costumes e valores vão surgindo. Em relação ao duelo, este cessará completamente quando a causa estiver também completamente eliminada. Nascido da incapacidade do ser de lidar com uma ofensa, julgava este a necessidade de responder a agressão com ofensa maior, a morte do adversário. Hoje este pensamento não tem mais espaço aceito abertamente, sinal de algum progresso moral. No entanto, estes embates ainda são vistos na atualidade: ofensas trocadas na internet, ameaças veladas, lutas com palavras discriminatórias usando-se as armas da ironia, calúnia, mentiras etc. E se hoje, pela lei, não se pode mais tirar a vida do adversário com espadas trespassadas, busca-se o assassínio moral pela humilhação pública. Todas essas medidas são filhas do orgulho que se conforma ao tempo e as regras tentando sobreviver. Este é o verdadeiro adversário que cada espírita deve concentrar sua atenção para não continuar sendo sua vítima.

Item 14. Que juízo farão de mim, costumais dizer, se eu...
Pergunta: Que princípio evangélico dado por Jesus, o Espírito Francisco Xavier repete para que não caiamos nas armadilhas do orgulho? 

Resposta: Nota-se que da ofensa proclamada até o revide da vítima alguns passos são dados. Em muitas situações quando, espíritos imperfeitos, revidamos, o ato surge como algo irrefletido, um impulso de uma revolta que cega e obscurece o pensamento racional. Jesus nos ensinou a vigilância constante e a oração para não sermos levados pelas baixas sintonias que causam o mal e o posterior arrependimento, no curto ou no longo prazo. Por essa razão diz a mensagem: "Antes que chegue o momento decisivo, inquiris de vós mesmos se procedeis como cristãos?"

Itens 15 e 16. O homem do mundo, o homem venturoso...
Pergunta: Como o conhecimento da vida espiritual têm contribuído para o desaparecimento dos duelos?

Resposta: O espírito, em todos os tempos, age sempre de acordo com suas verdadeiras crenças. E o conhecimento da vida espiritual, que tem como consequência a espiritualização do ser e o melhoramento moral. Isto é, a medida que assimila a verdade, que são as leis espirituais, passa a ter uma conduta cada vez mais afinada com o bem, o respeito ao próximo, a humildade, reagindo melhor às ofensas e golpes que sofre da vida em todos os sentidos. Assim, não somente os duelos físicos, mas também os duelos morais vão desaparecendo pouco a pouco sempre de acordo com a elevação espiritual dos seres. Por isso, Kardec afirma: "O Espiritismo apagará esses últimos vestígios da barbárie, incutindo nos homens o espírito de caridade e de fraternidade".