Acompanhe o estudo do evangelho segundo o Espiritismo através de um roteiro sistematizado de perguntas e respostas para cada item do capítulo.
Por Gilton Carlos
23/05/2024
Item 1. Ninguém pode servir a dois... Pergunta: Quem foi Mamon?
Resposta: Esta palavra tem origem na própria cultura dos povos semitas (árabes, judeus, babilônios, assírios, fenícios etc.) e, portanto, é de uso corrente aos tempos de Jesus. Diferentemente do que possa sugerir, a palavra não designa uma pessoa ou figura histórica. Significa literalmente "riquezas materiais". A aplicação que Jesus dá contrapõe Deus e Mamon. Isto é, as coisas espirituais e as coisas materiais. Nós não temos condições de igualá-las. Sempre estaremos priorizando uma em detrimento da outra.
Item 2. Então, aproximou-se dele um mancebo e disse... Pergunta: Qual a recompensa que Jesus se refere ao orientar o jovem rico?
Resposta: Podemos inferir, pela postura do jovem e a recepção de Jesus, que o homem cultivava desde jovem uma vida digna. Dado este estado já alcançado, a proposição do Cristo agora colocava-o em busca de um novo patamar. Abrir mão dos bens materiais, por caridade, ensejaria a ele, no céu, isto é, no mundo espiritual, uma tranquilidade de consciência de quem desenlaçou-se um pouco mais do apego material, isto é, está mais espiritualizado. Esta conquista evolutiva é a recompensa para o espírito que sai da encarnação após uma vida reta e de uma dignidade moral que vai até a abnegação.
Item 3. Então, no meio da turba, um homem lhe disse... Pergunta: Que pensar daqueles que buscamos Jesus apenas para apoiar nossas crenças pessoais já estabelecidas e interesses materiais?
Resposta: Jesus repreende o homem por sua visão estar voltada apenas a tranquilidade da posse material. Ele reconhece a grandeza e a autoridade do Cristo. Por isso, busca-o para ter essa força ao lado do seu argumento, uma vez que disputa com seu irmão bens materiais. No entanto, Jesus o adverte para o cuidado com o apego a coisas passageiras. Tão passageiras quanto nosso tempo na encarnação. Não sabendo quando retornaremos, ele aponta, não é melhor priorizar as coisas duradouras? O pensamento material está ligado a posição evolutiva inicial. Quando o espírito entende até onde vai o ensino de Jesus, passa então a segui-lo, mas agora em busca da transformação moral em detrimento das posses e da tranquilidade material.
Item 4. Tendo Jesus entrado em Jericó, passava pela cidade... Pergunta: Zaqueu doa metade dos seus bens, mas ao mancebo rico é pedido que doe tudo. O podemos dizer que Jesus esperava verdadeiramente de um e de outro?
Resposta: O tema que Jesus dá importância está na relação do espírito com a matéria. No ensino de um caso e de outro, podemos inferir razoavelmente que as atitudes de cada um estavam na capacidade de sacrifício dos bens materiais pelo bem do outro. Esta postura guarda um valor moral: da caridade que vai até a abnegação. Trata-se não dá quantidade que se doa, mas na motivação do ato. Por isso, a menor quantia pode ter um valor espiritual muito maior que grandes somas, a exemplo do reconhecimento que Jesus faz no episódio do óbolo que a viúva que doa no templo.
Item 5. Havia um homem rico, que vestia púrpura e linho... Pergunta: Como podemos entender o abismo que existe entre os que estão nos planos elevados de felicidade e os que se debatem em regiões de sofrimento?
Resposta: É um abismo moral. A passagem de um lado para o outro trata-se da condição que cada um passa no momento. Os espíritos que sofrem em regiões inferiores expurgam culpas, remorsos, erros cometidos, encarando a lei de causa e efeito. O simples desejo de subir não basta para que sejam conduzidos para colônias de refazimento ou mesmo de paz. Da mesma maneira, os que estão em posição evolutiva superior, tem a tranquilidade de consciência, como conquista imperecível do espírito. A experiência mostra, no entanto, a presença dos espíritos superiores nas regiões mais baixas trabalhando para auxiliar na mudança mental, preparação para a mudança moral, para que os que sofrem possam ser resgatados da condição de dor que estagiam. No entanto, os relatos mostram que não basta a vontade e o amor dos bons, é preciso que o abismo da revolta seja superado pelo espírito sofredor para que a ajuda se concretize.
Item 6. O Senhor age como um homem que, tendo de fazer... Pergunta: Que podemos entender, frente as dificuldades que enfrentamos na vida atual, da atitude de Deus, que na parábola dá "a cada um segundo sua capacidade"?
Resposta: Na história nota-se que a lei do trabalho foi incorporada para nos fazer entendê-lo como necessidade. Desse trabalho resulta o desenvolvimento, o progresso, as melhorias morais etc. Desta forma, podemos concluir que diante das adversidades que vivemos, os problemas que nos reclamam solução, e mesmo os receios e temores diversos que nos acompanham, que somos capazes de superá-los! E Deus, que nos conhece a todos, sabe disso de antemão, pois segundo Jesus ele age considerando os nossos limites. Da nossa parte, reconhecer isto é mais um dos desafios evolutivos que a vida nos oferece, uma vez que por falta de humildade nos colocamos abaixo de nosso potencial, na fuga pela falsa modéstia de quem não quer assumir sua responsabilidade ou querendo nos posicionar acima de onde realmente estamos, cedendo as inspirações do orgulho. Dois pontos essenciais retornam para nós: autoconhecimento para saber onde estamos e humildade para assumir as consequências disso.
Item 7. Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo... Pergunta: Por que na nossa posição evolutiva o apego material é tão forte a ponto de lutarmos tanto para reter os bens materiais?
Resposta: Imediatamente após ter saído do reino anterior, o Espírito possui como uma das características o instinto da sobrevivência. Quando o princípio inteligente torna-se Espírito adiciona a isso a razão, a consciência de si e a liberdade de agir. Estando encarnado, sua sobrevivência depende dos recursos materiais. Raciocinando, guarda, protege, mantém consigo hoje, pela incerteza do amanhã, até que desenvolva o senso moral do trabalho e da fé. Isto é mais pronunciado quanto mais próximo está deste ponto de partida. Assim, podemos concluir que quanto mais forte é o apego as coisas materiais, mais próximo o espírito está do início de sua jornada evolutiva, em termos morais.
Item 8. A desigualdade das riquezas é um dos problemas... Pergunta: Qual seria a medida ideal ou saudável de posse nas nossas relações com os bens materiais?
Resposta: A matéria é dada ao espírito para ser seu auxiliar na evolução. Toda espécie de domínio que os bens materiais exercem sobre ele resulta em perigo de inverter os papéis e perder-se ante o objetivo ao reencarnar. A corrida saudável pela posse das riquezas materiais estaria mais ligada a garantia da sua sobrevivência e a uma consequência do progresso do espírito encarnado do que propriamente a conquista desenfreada pelo acúmulo, uma vez que no nível médio evolutivo da humanidade, a riqueza é tida como um valor que mede a importância da pessoa. Além disso, nesta última situação, em muitos casos, pode ocorrer de o possuidor ser incapaz de desfrutá-la, por falta de tempo ou como no caso do rico insensato da parábola. O equilíbrio vem do desafio de utilizar-se dos bens materiais sem desperdiçá-los dentro da utilidade que cada coisa tem.
Item 9. O homem só possui em plena propriedade aquilo que... Pergunta: A que podemos atribuir o nosso engano passado, por tanto tempo, sobre comprar lugares no céu com bens materiais da terra?
Resposta: Se na idade média, período moral sombrio da humanidade terrena, comprávamos o céu na terra antes da morte, é bem verdade que nem todos aceitavam essa propagação. Em todos os tempos houve lutas entre a verdade e o engano. A falta de conhecimento da vida espiritual aliada ao baixo desenvolvimento do senso moral davam e dão espaço para convencimentos deste tipo, que hoje a razão mostra por absurdo. Da mesma maneira, acontecerá com algumas ideias tão comuns da atualidade que uma posição moral superior demonstra discordar. Como, por exemplo, os simples atos de mentir, se atrasar, criticar etc. Notemos os bons espíritos. Nenhum utiliza desses modos para se relacionar embora, na posição da maioria de nós, ainda justifiquemos cada um deles como plausível e aceitável. Estes hábitos desaparecem a medida que o Espírito se moraliza, por refinar em todos os aspectos de sua existência a forma de tratar o outro, essência da caridade.
Item 10. Os bens da Terra pertencem a Deus... Pergunta: "Poderá o homem usar e abusar de seus haveres durante a vida, sem ter de prestar contas? Não". Que reflexões pode esta afirmação nos trazer? Ela não se aplica somente aos ricos? Os pobres já tem tão pouco...
Resposta: Ainda aqui devemos recordar o objetivo da encarnação. As características de cada existência são constituídas para o crescimento intelectual e moral do Espírito. Assim, as posses materiais são temporárias exatamente pelo fato de serem úteis àquele objetivo, no tempo previsto. Então, quando um dos dois é alcançado, o objeto ou o tempo, a posse cessa. Independentemente da quantidade de bens materiais, que vai de acordo com o objeto e capacidades de cada um, todos a recebemos como empréstimo. E ao final do período de empréstimo é justo que procedamos a sua devolução.
Item 11. Não podeis servir a Deus e a Mamon... Pergunta: Se o objetivo do Espírito ao reencarnar é sua evolução, se os bens materiais são dados a ele para seu uso, por que não pode usá-lo para si próprio?
Resposta: O Espírito possui sempre a liberdade de agir, que é sempre maior conforme mais elevado o é. A evolução moral e intelectual fundamenta-se na lei de amor. O uso particular dos bens materiais tem uma nuance que é dada pelo mandamento maior: amar a Deus e ao próximo. A forma de evoluir é fazendo pelos outros. Dentro deste conceito está o benefício a si próprio, como uma consequência natural. Acontece que, estando no início evolutivo é mais turva essa compreensão, o que nos leva a inverter o processo agindo com egoísmo para somente depois pensar em caridade.
Item 12. Quando considero a brevidade da vida... Pergunta: Como entender a afirmação de que a matéria "manda sobre o vosso Espírito"? É correta esta observação?
Resposta: O ponto de vista espiritual faculta uma avaliação mais justa da vida material. Nossa própria experiência e uma observação metódica de nosso comportamento e dos outros pode confirmar a afirmação de que, de regra, sofremos grande influência da matéria, o que leva muitos de nós a essa corrida pela posse, retenção de bens etc. O ensino de Jesus aponta todo para a educação do espírito no sentido de elevar-se acima disso. A matéria, por princípio, é criada para auxiliar o espírito (questão 22a, LE). No entanto esta compreensão e assimilação na vida normal vêm com o crescimento intelectual e moral do espírito. Isto quer dizer que, no nosso nível, a afirmação é justa muito mais para aqueles que estamos mais próximos do ponto de partida que para os que já estão a meio caminho do objetivo evolutivo, isto é, mais espiritualizados.
Item 13. Sendo o homem o depositário, o administrador dos bens... Pergunta: Que outro uso pode-se dar ao dinheiro que temos, além das doações, propriamente ditas?
Resposta: A matéria, em todas as suas expressões, é concebida como auxiliar no desenvolvimento do Espírito. O dinheiro é um poderoso motor de transformação e progresso. E é neste ponto crucial que se assenta a reflexão. Quando direcionado somente ou prioritariamente para quem o possui redunda em egoísmo. Quando apontado para benefício dos outros resulta na caridade. A evolução no usufruto do dinheiro está em promover, com o poder que ele traz consigo, alívio na dor, na fome, tranquilidade ante a insegurança que alguém passe etc. Porém, além destas óbvias, auxiliar alguém na realização de um curso de educação, na aquisição de livros para seus estudos, oferecendo salário através do trabalho, além de pequenas gentilezas, são outras tantas formas de se fazer o bem através do dinheiro.
Item 14. Venho, meus irmãos, meus amigos, trazer-vos o meu óbolo... Pergunta: Como podemos entender a afirmação de que "Quando tendes cheios os cofres, não há sempre um vazio no vosso coração"? Em outras palavras, por que as coisas materiais não nos satisfazem completamente?
Resposta: Quando andamos ainda nos primeiros níveis da evolução, nosso ponto de vista e o alcance dele estão limitados ao nível de nossas aquisições intelectuais e morais. Neste ponto, tão próximo da matéria, o Espírito a respira como fonte de quase tudo. Incapaz de compreender as nuances e potencialidade das coisas espirituais arvora-se para ter e reter bens materiais. No entanto, pela nossa própria natureza, a componente espíritual é que carece de desenvolvimento por ser onde reside este anseio de paz e felicidade que carregamos sempre. De início, buscamos preenchê-la com o que temos nas mãos, isto é, a matéria. Mas a medida que avançamos em entendimento e bondade percebemos que a paz e a felicidade são conquistadas com ações morais. Este é o passo, o processo, que estamos neste momento realizando.
Item 15. O princípio, segundo o qual ele é apenas depositário... Comentário: A questão levantada é resultado da reflexão natural sobre o uso dos bens materiais, uma vez que sendo de uso temporário e concedido por Deus, até onde vão nosso limite de controle sobre eles? O desejo de transmitir bens aos outros, após a desencarnação pode ter três origens: a vontade sincera de prover alguma tranquilidade àqueles que se ama e estão sob seus cuidados, o desejo egoísta de mantê-los ainda na família como um último ato de orgulho ou ainda um pouco de cada um. Estando este ato subordinado a vontade de Deus, nada vai poderá alterar o resultado. Por isso, cabe a nós, a quem deseja deixar heranças aos descendentes entender o que move realmente esta vontade. Por isso, ainda aqui recordaremos a questão 919 de O livro dos espíritos, sobre olhar para dentro de si, e repetir "conhece-te a ti mesmo".